Publicado por: Renné | 22/07/2010

Um mês

Falta um mês para a minha volta. Estou na verdade um pouco perdido: sinto saudades, muita vontade de regressar ao Brasil e rever todos que deixei lá. Ao mesmo tempo, é meio inacreditável pensar que não estarei mais aqui. Braga virou minha casa. Com amigos, lugares conhecidos, restaurantes prediletos.

Impressionante como nos adaptamos. É difícil pensar em ver um filme sem ser no cinema daqui, ou me programar para algo que não vai acontecer em Portugal. A experiência aqui foi espetacular. Fascinante. Hoje, voltando para casa, passei por um show de fado na praça. Pela primeira vez olhei para aquelas pessoas e aquela paisagem com um olhar nostálgico. O mesmo cenário que olhei com os olhos de um turista, de alguém descobrindo algo novo, hoje olhei com os olhos de alguém que se despede, que já conhece bem demais aquele espaço um dia surpreendente.

Muitas pessoas tem me perguntado se os dias agora estão passando muito depressa ou muito devagar. Não sei responder, é uma sensação que nunca tive. Parece demorar demais pra chegar ao Brasil, abraçar todo mundo, matar a saudade que eu tanto sinto. Por outro lado, o tempo parece desaparecer quando penso em tudo que ainda queria fazer, as pessoas que não vou mais encontrar, a paisagem que não vou mais ver. Hoje foi o início do fim. Daqui a um mês, eu chego. E este blog, claro, acaba. Foi bom enquanto durou.

Publicado por: Renné | 16/07/2010

Viseu

Conta a lenda que um grupo de guerreiros chegou a uma região remota de Portugal e um deles, muito intrigado pelo local onde havia a interseção dos rios Pavia e Dão, perguntou “Que viso (vejo) eu?”. E daí, tcharam!, nasceu o nome da cidade.

Mas a verdade é que Viseu remonta da época da Roma antiga, mas pouco restou para se ver. O atrativo da cidade é seu centro medieval muito bem conservado, e que guarda muito da história portuguesa.

Fui a Viseu um tempo atrás, para dar uma aula sobre minha pesquisa. Estava curioso pela principal lenda da cidade: Viriato. Trata-se do líder de uma tribo lusitana que teria confrontado os romanos na Península Ibérica. Grande guerreiro, herói que desafiou o império romano, Viriato teria nascido, ou vivido, ou passado por Viseu. Enfim, o nome da cidade estava sempre associado ao nome do herói.

Mas foi só chegar lá que descobri que Viriato nunca passou por lá, muito menos nasceu ou viveu. Se alguém aí assistiu “Roque Santeiro” sabe a decepção que eu senti. É mais ou menos como se dissessem que o ET nunca esteve em Varginha…

Mas mesmo sem Viriato há coisas bonitas de se ver da cidade medieval

Publicado por: Renné | 12/07/2010

Afinal, a final

Última ida à praça de Braga para ver um jogo de Copa de Mundo. Holanda e Espanha no telão. Portugueses, brasileiros, holandeses e espanhóis na arquibancada. Os holandeses nem precisavam da camisa laranja para se diferenciarem: loirinhos, pele quase rosa, olhos claros e mais quietos, apesar de alguns gritos de guerra muito bem coreografados. Os espanhóis naquela gritaria e animação, com reações dramáticas para cada jogada.

E com o gol de Iniesta no segundo tempo da prorrogação, a Copa acabou. Espanha campeã, os espanhóis em Braga pulando e cantando sem parar. E adivinha onde eles foram parar? Na fonte… Título espanhol, mas comemoração brasileira…

Torcida brasileira fazendo escola

Publicado por: Renné | 11/07/2010

Festival gastronômico

Toda semana Braga tem uma festa. Hoje é o último dia do Festival Gastronômico da cidade. Em uma ampla praça, barracas e restaurantes com grande diversidade da comida portuguesa. Sanduíche de porco, arroz de javali, bacalhau, pastéis de nata, tortas, doces diversos. Tudo embalado com música típica e muita gente dançando. E eles dançam mesmo, com aqueles passinhos tradicionais que a gente via o Roberto Leal fazer. Há um tipo de música aqui que parece bastante com o repente nordestino, quando um desafio é feito e vários cantores improvisam na hora. Mas tudo no ritmo tradicional, uma versão mais lenta daquele ritmo do “vira”. Os portugueses gostam muito de festa. E também de comer.

Punheta de bacalhau...

Publicado por: Renné | 08/07/2010

Mormaço

Acho que só senti algo parecido em Teresina. É um calor sufocante, daquele que você sai do banho já molhado de suor. E não venta. O sol queima com força e você parece o tempo inteiro confinado dentro de um forno.

Aqui brincam que Braga são seis meses de inverno e seis meses de inferno. A média de dia é 35 graus, mas há picos de 38, 39… De madrugada fica em torno de 30, 32.  Eu, que reclamei tanto do frio, me recuso a reclamar do calor. Mas… uau. Que coisa…

Publicado por: Renné | 02/07/2010

Nem o sol quis ver

Depois de um sol escaldante e um calor quase insuportável por várias semanas seguidas, na sexta feira Braga amanheceu com o céu nublado. Já era um sinal de que as coisas não estavam muito bem…

Mais uma vez fui para a praça, pela primeira vez com um ventinho frio. Os brasileiros fizeram sua parte, até bateria levaram para lá. Cantaram e dançaram como sempre. No primeiro tempo do jogo contra a Holanda, o Brasil deu show de bola no campo e a torcida deu show em Braga. Mas aí veio o segundo tempo, os dois gols holandeses e a expulsão do Felipe Melo. Silêncio total. Não era possível. Faltando três minutos para acabar o jogo, a chuva começou a cair. Um a um os brasileiros foram embora para casa, tristes, na chuva.

A sensação aqui é estranha. Não ficamos com tanta raiva do Dunga e do Felipe como parece que quem está no Brasil ficou. Na verdade, esta é a eliminação do Brasil em Copa que menos me afetou. Fiquei tranqüilo, assim como todos os outros brasileiros por aqui. Sem revolta, sem vilões, sem buscar um culpado. A sensação pura e simples é que não deu e que daqui a quatro anos tem mais.

Uma pena. Mas para mim valeu a experiência de viver isso aqui, longe de casa. Mais tarde, voltei à praça para ver um dos finais de jogos mais espetaculares que já vi. Uruguai e Gana tornaram o dia ainda mais histórico. A Copa continua, mas a festa da torcida brasileira acabou. Espero que pelo menos o sol volte.

Não deu.

Publicado por: Renné | 30/06/2010

Triste como um fado

37 graus. Muito sol. Muita gente. Os portugueses lotaram a praça de Braga. Ninguém dentro da fonte, todo mundo comportado, sentadinho na arquibancada e no chão. De cara a Espanha mostrou que era muito mais time. Eduardo fez alguns milagres, Cristiano Ronaldo mais uma vez não fez nada.

A torcida se revoltava, sofria, xingava. E em uma jogada digna do Barcelona, a Espanha fez o gol que eliminou Portugal. A tristeza era sentida no ar, como se pudesse ser respirada. O tempo passava mais rápido do que os portugueses queriam. Alguns começaram a levantar e ir embora. Eu torci até o fim. Mas não deu. Portugal volta para casa. Cristiano Ronaldo é vilão nacional. Hoje na TV só se falou de uma possível crise interna entre jogadores e comissão técnica. O país está triste. Lembrei demais do nosso jogo contra a França quatro anos atrás… Na sexta, Portugal vai torcer contra a Holanda.

A decepcionada torcida portuguesa

Publicado por: Renné | 29/06/2010

Nascido para jogar futebol

Sol de rachar na cabeça, arquibancada lotada, cerveja gelada. De volta à praça de Braga, a torcida brasileira mais uma vez fez a festa no jogo contra o Chile. E que festa… O jogo parecia ficar sonolento até que Juan fez seu gol. Pouco depois, Luís Fabiano fez mais um.

No intervalo já todo mundo pulava e dançava. Mais um gol de Robinho no segundo tempo e pronto. Não tinha mais torcida, era tudo comemoração. O jogo acabou e no telão começou a tocar Ivete Sangalo, axés variados, samba e tudo o mais que gringo considera “música brasileira”. As pessoas faziam coreografias e se tornaram uma atração a parte para os portugueses que estavam por ali. Um torcedor brasileiro ao meu lado pediu para ler a pequena frase que estava escrita na minha camisa: “Nascido para jogar futebol”.

Ele repetiu três vezes em voz alta, um pouco engasgada. Com os olhos marejados, olhou para mim e disse: “E é mesmo…”. Se virou, correu em direção à fonte e… pulou! Só então eu vi. Homens, mulheres, crianças e cachorros… O cartão postal de Braga havia se transformado em uma luminosa piscina. Os portugueses, sem reação, viam aquele bando de gente nadando, cantando, pulando, sorrindo. Sorrindo, sorrindo e sorrindo. Como é bom ser brasileiro…

Sabe aquela fonte que eu sempre mostro? Pois então...

Publicado por: Renné | 26/06/2010

“A final antes da hora”

Era assim que a imprensa portuguesa chamou Brasil x Portugal. Era o jogo que todo mundo esperava por aqui desde o sorteio dos grupos da Copa. Nas ruas, nunca vi tanta gente vestida com a camisola da equipa nacional… Muita expectativa e… nada. Nenhum gol. Uma bola na trave deu um pouquinho de emoção e ninguém brilhou.

Acabei vendo com um grupo de brasileiros, na casa de um deles. Cerveja, pão de queijo (oba!), panaché, tequila, amendoim, azeitonas. Dessa vez, a torcida foi menor, a animação também. Mas segunda e terça tem duas “decisões”. E não tenho nenhuma dúvida que Portugal vai parar na hora do jogo contra seu maior rival: e não estou falando só do futebol, estou falando de uma história que existe desde que as duas nações se separaram. Guerras, conquistas, reconquistas, piadas: Portugal e Espanha vão levar para dentro de campo alguns séculos de história.

Dessa vez não teve telão... foi na tv mesmo

Publicado por: Renné | 24/06/2010

São João

Começou uma das mais tradicionais festas portuguesas. A festa junina daqui não é igual a do Brasil: para começar, nada de caipira, chapéu de palha, roupa remendada. Os shows são de fado, e quem se fantasia, usa roupa típica portuguesa. O prato tradicional é a sardinha, mas tem também muitos churros e a onipresente bifana.

Mas o mais divertido da festa é o martelinho. Um desses martelos de plástico, estilo Chapolin Colorado, que faz barulho quando bate em alguém. A diversão é andar pela rua dando e recebendo martelada. Quando ouvi sobre isso pela primeira vez, não liguei muito. E demora um pouco até você ter coragem de dar a primeira martelada, e também de receber a sua na cabeça… Mas depois…

Digamos que fiquei nessa das 10 da noite até as 2 da manhã… O centro de Braga estava cheio como nunca vi, era mesmo difícil de andar, e todo mundo se martelando e ainda enfregando no seu rosto arruda e alho poró. Os mais preparados estavam com máscara cirúrgica (para se proteger do alho) e capacete (para os martelos). Crianças, adultos, velhinhos, adolescentes. Todo mundo feliz, correndo pra lá e pra cá com seus martelos coloridos. O meu era, claro, verde e amarelo. Em época de Copa do Mundo, as rivalidades aparecem até mesmo no divertidíssimo dia de São João…

São João, aqui, é representado como criança

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