No dia 09 de novembro de 1989, com meus oito anos de idade, vi algo extraordinário na televisão. Não tinha as condições ainda de entender por completo aquilo, mas sabia que era importante. Estavam derrubando um muro que dividia uma cidade ao meio. Minha mãe contou que netos poderiam ver os avós e amigos que estavam separados poderiam se encontrar. Eu lembro de olhar aquilo impressionado, porque eram as pessoas, gente normal, que estavam derrubando tudo. Com grandes picaretas ou machadinhos, elas quebravam o concreto. E sorriam. E cantavam. Muitos ali embaixo, vários em cima. Um policial chegou com uma mangueira enorme, como se para deter a multidão com jatos d’água. Um jovem o encarou e sacou… um guarda-chuva! Era uma festa. Era lindo. Eu via os repórteres na televisão - e na minha memória é mais clara a figura do Pedro Bial - e pela primeira vez pensei: “É isso que quero fazer. Eu quero ver a história acontecer”.
Segui a vida, acabei fazendo jornalismo para ver a história acontecer, mas entrei por outros caminhos daquele curso. Caminhos que me trouxeram para Berlim, para ver um pedaço daquela história continuar a acontecer. Não importa que sonhos aquela criança tinha naquele novembro de 89, eu garanto que ela nunca imaginou estar no local daquelas imagens que tanto a fascinaram exatos 20 anos depois…
O dia começou para mim na Alexanderplatz. Fui andar pela praça, ver a espetacular Fonte de Netuno e ainda encontrar uma estátua de Marx e Engels. Quis olhar o muro mais uma vez antes de ir para o
Brandenburg, onde seria o centro da celebração. Almocei perto do Checkpoint Charlie, olhando para aquele concreto sujo e pichado, imaginando e lembrando imagens icônicas como a moça em pé numa escada acenando para o outro lado do muro. Segui para o Portão e precisava tomar uma decisão logo. De um lado do Brandenburg, na frente, haveria uma ópera, com Placido Domingo e tudo. Do outro lado, atrás do Portão, teria os dominós, os discursos políticos, show do Bon Jovi (até agora não entendi o que Bon Jovi tem a ver com o muro…). Fui para a parte de trás, parecia mais interessante e era de onde foram feitas as imagens que vi nos meus oito anos.
Cheguei cedo e peguei um ótimo lugar, bem na frente. Aí era esperar, em pé e no frio. Logo já estava tudo cheio. Umas duas horas depois, começou a chover. E a chuva foi apertando e de repente se transformou na chuva mais pesada que peguei em Berlim em toda a viagem. Fazia três graus, minha touca começou a
encharcar e depois de uma hora na chuva, desisti. Fui encontrar um lugar para me esconder. Faltava ainda uma hora para a celebração começar. Eu tremia todo, as mãos e pés doíam como se estivessem congelados. Então o telão passou um clipe com aquelas imagens da minha infância e começou a transmitir a ópera do outro lado do Portão. De repente, nos prédios em volta do Brandenburg, anjos surgiram no topo, em uma clara referência ao filme “Asas do Desejo”. Homens e mulheres de chapéu, sobretudo, maleta e enormes asas brancas nas costas, em pé, lá em cima dos prédios. A ópera começou a tocar uma música que não sei o nome, mas que os alemães cantaram 20 anos atrás na derrubada do muro. E eles começaram a cantar de novo, ali, em volta de mim. Cantavam o “refrão”, pulavam.
E então eu percebi. Fazia frio para mim e para os outros turistas que se escondiam da chuva. Os alemães estavam lá, em pé, imóveis, molhados e felizes. A felicidade era palpável naquele momento. Eles riam, os olhos brilhavam.
Voltei pra chuva, não viajei aquilo tudo para ficar ali, escondido. Claro que era impossível voltar ao local onde eu estava antes, mas consegui chegar um pouco mais perto. A ópera acabou e um menininho
atravessou o Portão para o lado de cá, assobiando a introdução de “Wind of Change”, do Scorpions. Atrás dele várias outras crianças, e atrás delas, Angela Mer
kel, Nicolas Sarkozy, Gordon Brown, Hillary Clinton e Mikhail Gorbachev. Cada um deles fez seu discurso, e quando Gorbachev foi delirantemente aplaudido pela multidão, entendi a importância daquele homem para aquele povo. Passaram mais imagens no telão com o muro caindo, carros antigos atravessando para o outro lado. As pessoas aplaudiam, vibravam. Lech Walessa empurrou a primeira peça de dominó, dando início à q
ueda em toda a cidade.
Bon Jovi cantou a música “We Weren’t Born To Follow” e depois Paul van Dyk cantou “We Are One” . O “Fest der Freiheit” acabava. Com os dominós caídos, voltei para o albergue, dando várias voltas por causa do trânsito modificado.
A sola dos pés doía, as pernas também. Ao todo, fiquei mais de sete horas em pé, no frio. Mas voltando no meio da rua fechada para os carros, na companhia de centenas de pessoas ao meu lado, não tive como não lembrar de uma frase dita pelo Pedro Bial naquele nove de novembro de vinte anos antes. “Meus braços e pernas estão cansados. Mas meus olhos não se cansam de ver a história acontecer”.






















